Missão completa

Missão completa

A Grande Comissão, como é chamado este texto, apresenta a ordem de se fazer discípulos de todos os lugares. Entende-se aqui que a ordem transcende a geografia, não se limitando também a uma etnia ou um povo; a ordem é para que os discípulos façam discípulos.

É interessante (e até mesmo motivador) observar o empenho evangelístico dado por parte da Igreja Evangélica. No desejo de ver vidas salvas, ela se mobiliza, organiza eventos para arrecadar fundos, forma grupos de oração com o propósito de que haja um reforço espiritual e, então, envia um ou dois voluntários, às vezes caravanas missionárias, comissionando esses irmãos. No entanto, todo este esforço é para a realização de apenas parte de sua missão: evangelizar. Para muitos, o ensino é relegado a um segundo plano que, acreditam, “não faz parte do nosso ministério”, como alguns líderes afirmam.

Por essa interpretação quanto à Grande Comissão, um missionário ouviu com muita dor o que disse um líder cristão africano: “vocês nos ensinaram o caminho da salvação, mas não nos ensinaram a viver como cristãos”. Jesus tem chegado a muitos lugares da África, mas muitos ainda não sabem como viver como discípulos dele pelo fato de que ninguém lhes ensinou sobre isso. A salvação chegou aos corações, mas ainda não se reflete nas atitudes.

Falta a muitos cristãos uma mudança de atitude com relação ao trato de crianças, adolescentes, jovens e mulheres; muitos ainda precisam mudar de atitude com relação ao casamento, relações extraconjugais, veneração a espíritos familiares e a antepassados mortos, por exemplo. Alguns dizem que o Espírito Santo se encarregará de fazer o restante do serviço. No entanto, delegar o serviço não faz parte da missão. Talvez fosse mais honesto admitirmos (como Igreja) que o ensino requer um acompanhamento insistente, muitos e variados recursos humanos e materiais, assim como reconhecermos que ensinar denota tempo, que muitos de nós, imediatistas, não estamos dispostos a isso, nem mesmo em investir.

Jesus ordena: “ensinando-os a guardar”. A palavra em grego sugere uma atenção cuidadosa e diligente, prestando bastante atenção, como foi traduzido no texto acima. Os novos discípulos devem estar atentos a tudo o que está sendo ensinado, para que ocorra também uma transformação relacional, comportamental, e não apenas soteriológica. Um dos fatores para essa divisão da missão talvez seja a própria separação da Grande Comissão em dois versos bíblicos. Muitos memorizam o verso 19 e se empenham por torná-lo uma realidade. No entanto, é importante considerar que, originalmente, o texto foi escrito sem divisões, facilitando a compreensão do ouvinte daquele tempo que se tratava de uma mesma ordem.

Outro aspecto refere-se às duas palavras: tanto batizar como também ensinar estão no mesmo tempo verbal. Ambos são particípio, traduzidos corretamente pelo gerúndio, conforme se encontra em nossas bíblicas, sugerindo uma ação mútua. Além disso, das 95 vezes que a palavra ensinar (e sinônimos) aparece no Novo Testamento, 62 delas estão nos evangelhos e em Atos. Realmente, Jesus e as primeiras igrejas estavam empenhadas nesse ministério.

Para alguns de nossos irmãos, a sua parte da missão está cumprida. Para Jesus, porém, apenas parte dela foi feita. Precisamos nos alegrar com uma transformação na vida humana, que é feita através da evangelização e do ensino, como o próprio Jesus deixou claro. Muitas pessoas na África ainda choram desesperadas, sem direção, embora tenham entregado suas vidas a Jesus. Outras, ainda, fazem graves e estranhas interpretações de textos bíblicos que faz com que tanto elas, como as que estão ao seu redor, continuem vivendo sob um pesado fardo espiritual.

Nós, Igreja, precisamos compreender a importância de ensinar, permitindo que os discípulos possam tanto evangelizar, como também continuar ensinando. A Grande Comissão se completa com o ensino. Assim, a Terra se alegrará, tanto pela salvação, como também pela mudança de vida diária diante da sociedade.

Pr. Rawderson Rangel
Missionário em Moçambique